{"id":357,"date":"2023-07-21T16:04:34","date_gmt":"2023-07-21T14:04:34","guid":{"rendered":"https:\/\/if-epfcl-paris2024.champlacanienfrance.net\/?page_id=357"},"modified":"2024-04-19T07:42:10","modified_gmt":"2024-04-19T05:42:10","slug":"fragmentos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/if-epfcl-paris2024.champlacanienfrance.net\/pt-br\/fragmentos\/","title":{"rendered":"Fragmentos"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading alignwide\"><strong>Fragmento 1 \u2013 <em>Antecedentes da pergunta<\/em><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A ang\u00fastia hoje se dilui em variantes que a despojam de todo valor \u00e9tico. P\u00e2nico, ansiedade, fobias, sintomas ps\u00edquicos e som\u00e1ticos migrat\u00f3rios, culpa e depress\u00e3o por falta de rea\u00e7\u00e3o. Como sempre, tenta-se suprimi-la mediante narc\u00f3ticos, \u00e1lcool, cogumelos, palavras m\u00e1gicas, ritos religiosos e outros f\u00e1rmacos que agora a ci\u00eancia prov\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo em que Marx introduzia a no\u00e7\u00e3o de sintoma social, em 1844, Kierkegaard introduziu a ang\u00fastia como conceito. A ang\u00fastia n\u00e3o \u00e9 defin\u00edvel como social nem plural, \u00e9 pessoal e est\u00e1 ligada ao pecado, \u00e0 pr\u00f3pria escolha com base no saber do sexo \u2013 <em>sexo<\/em> no sentido pr\u00f3prio do termo, <em>corte<\/em> \u2013. Em oposi\u00e7\u00e3o a todas media\u00e7\u00f5es do saber absoluto hegeliano, o sexo \u00e9, para Kierkegaard, o \u00fanico caso em que a s\u00edntese implica contraposi\u00e7\u00e3o e exige escolha. N\u00e3o h\u00e1 realidade intermedi\u00e1ria e, se se requer uma, ali est\u00e1 a ang\u00fastia. Faz isso discretamente, seu texto <em>Begrebet Angest <\/em>\u00e9 publicado sob o pseud\u00f4nimo de Vigilius Haufniensis. Freud inaugurar\u00e1 uma disciplina nova ao considerar abertamente que ang\u00fastia e sintoma, para o falante de l\u00ednguas equ\u00edvocas, incluem o sexo como condi\u00e7\u00e3o causal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00f3spito contexto alem\u00e3o de 1927, Heidegger explicava que la ang\u00fastia n\u00e3o se produz frente a nenhum objeto do mundo, e sim frente o <em>mundus<\/em> (ordem) como tal, esse mundo que duplica o corpo e que Lacan, que o lia com cuidado, reduziria a um objeto <em>a<\/em>. A ang\u00fastia nos extrai da realidade cotidiana e impessoal do discurso comum, do mercado em que as coisas t\u00eam valor de troca ou de descarte. Essa ordem de mercadorias se imp\u00f5e a todas as refer\u00eancias, deixando o falante mais e mais vulner\u00e1vel a uma ang\u00fastia que, subitamente, o reduz ao corpo como <em>solus ipse<\/em> em um mundo shopping, n\u00e3o-lugar, <em>unheimlich<\/em>. Por isso, a certeza da ang\u00fastia, ainda sem realidade, assinala a possibilidade, a imin\u00eancia certa de Outra coisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A cura que prop\u00f5e o fil\u00f3sofo \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia singular no tempo, a cada dia lhe basta seu af\u00e3 (<em>Sorge<\/em>, <em>souci<\/em>), a cura consiste na a\u00e7\u00e3o do ser para a morte. V\u00e1rias d\u00e9cadas antes, Freud havia advertido que a ang\u00fastia n\u00e3o se produz s\u00f3 nessa perspectiva e, sem pseud\u00f4nimos, introduz o ser para o sexo, o ser dois: a ang\u00fastia \u00e9 perante o corpo Outro, o desejo do Outro, a rela\u00e7\u00e3o deficiente com o Outro, o abandono e, inclusive, o desejo de morte (do Outro).<\/p>\n\n\n\n<p>A solu\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, neutra ou gen\u00e9rica, se limita \u00e0 autoajuda; voc\u00ea l\u00ea o manual e se vira como pode. A solu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 o f\u00e1rmaco; voc\u00ea entrega seu corpo como ente bioqu\u00edmico. O dizer de Freud aposta no encontro de um Outro capaz de escutar e de fazer falar a ang\u00fastia, lev\u00e1-la ao campo subjetivo da interpreta\u00e7\u00e3o, do sintoma e da transfer\u00eancia. Passar da certeza a acreditar nela (<em>y croire<\/em>), acreditar que ela <em>quer dizer<\/em> algo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Gabriel Lombardi<\/em><\/strong><em>, Buenos Aires, 23 de julho 2023<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading alignwide\">Fragmento 2 &#8211; <em>A ader\u00eancia<\/em><\/h2>\n\n\n\n<p>A ang\u00fastia adere &#8211; pequena, m\u00e3o leve, no antebra\u00e7o; violenta, acaba em sangue. Pode-se empenhar-se em civiliz\u00e1-la cada vez mais, ela est\u00e1 sempre l\u00e1, \u00e0 espreita; ela surge quando n\u00e3o se espera e tudo cai por terra. \u00c9 por isso que os psicanalistas, desde Freud, se empenharam em buscar uma ang\u00fastia mais fundamental que a da castra\u00e7\u00e3o, a qual suporia um cen\u00e1rio j\u00e1 bem elaborado. Encorajados por Rank e seu trauma do nascimento, que for\u00e7ou Freud a retomar a quest\u00e3o, eles inventaram a <em>aphanisis<\/em>, o despeda\u00e7amento, o colapso, o desmantelamento, o desenraizamento, toda uma s\u00e9rie de cen\u00e1rios do terror supostamente mais primitivos, \u00e0 altura de uma ang\u00fastia sem limite.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o deveria ser tratada facilmente: papai-mam\u00e3e, xixi-coc\u00f4, eu e eu e eu. Mas o outro, aquele que rosna e que amea\u00e7a, ser\u00e1 que n\u00f3s o fazemos calar com essas bobagens deveras desgastadas? Aos traumatizados (TEPT, em portugu\u00eas), de quem Freud e seus alunos fizeram mais caso do que n\u00f3s, expliquem ent\u00e3o a lei do pai e nos contem o resultado&#8230; Nesse ponto, \u00e9 preciso analisar: em Lacan encontramos essa distin\u00e7\u00e3o das ang\u00fastias e o desconcerto diante das manifesta\u00e7\u00f5es de uma que seria primitiva com a qual n\u00e3o se saberia muito bem o que fazer? Ser\u00edamos, ent\u00e3o, conduzidos a reservar \u00e0s suas manifesta\u00e7\u00f5es categorias especiais: falso <em>self,<\/em> estado limite, <em>borderline<\/em>, etc.? Ou a ang\u00fastia que aparece como a mais primitiva n\u00e3o surgiria sempre em um dado contexto significante? Portanto, essa \u201cverdadeira ang\u00fastia\u201d seria a maneira com a qual se manifesta realmente, para certo sujeito, a realidade da castra\u00e7\u00e3o, de um modo que ele n\u00e3o queria e nem poderia imaginar, tal \u00e9 o horror que ela lhe causa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tocar nesse ponto n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio sen\u00e3o ao psicanalista, se ele quiser acolher uma demanda de verdade que esgotou seus semblantes e que n\u00e3o est\u00e1 pronta para recicl\u00e1-los a qualquer pre\u00e7o. H\u00e1 uma ang\u00fastia que n\u00e3o tem nome e que Lacan chamou por uma letra, a primeira: <em>a. <\/em>A ang\u00fastia da impossibilidade de se fazer escutar sen\u00e3o pela dor e pelo mal estar. Poderia tamb\u00e9m correr o risco, porque h\u00e1 risco a\u00ed tamb\u00e9m, de tentar enganar o horror com o v\u00e9u mais ou menos gracioso do fantasma, at\u00e9 ele escapar mais uma vez. Se os fantasmas s\u00e3o compartilhados, a maneira com a qual cada um fracassa \u00e9 contingente, pr\u00f3pria a cada um. Nesse ponto, vale a pena ir ver o que se passa e talvez dar um passo para tr\u00e1s para conseguir se descolar do sintoma e acalm\u00e1-lo. Como n\u00f3s fazemos falar os rastros do instante em que tudo escapa? Como n\u00f3s interpretamos a castra\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Marc Strauss<\/em><\/strong><em>, Agosto de 2023<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o,<\/em> <strong><em>Beatriz Chnaiderman<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading alignwide\"><strong>Fragmento 3 \u2013 <em>No princ\u00edpio era a ang\u00fastia<\/em><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Embora a ang\u00fastia pare\u00e7a uma situa\u00e7\u00e3o epis\u00f3dica, onde a raz\u00e3o ou o pensamento se paralisam e o corpo \u00e9 tomado por algo que \u00e9 mais que medo, ela \u00e9 estruturante. Do in\u00edcio ao fim, Lacan a situa como vindo do real. Primeiro como efeito da \u201centrada do sujeito no Real&nbsp;<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u201d, corte do simb\u00f3lico sobre o real, cujo efeito \u00e9 \u201co ser puro do sujeito&nbsp;<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u201d. Uma entrada por destitui\u00e7\u00e3o subjetiva na constitui\u00e7\u00e3o. Ao final de sua obra, ele a situa no n\u00f3 borromeano como um deslocamento do real sobre o simb\u00f3lico&nbsp;<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, assim como um dos nomes do pai&nbsp;<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O estruturante da ang\u00fastia \u00e9 que ela \u201c\u2026 se produz como um sinal no eu sob o fundamento do desamparo (<em>Hilflosigkeit<\/em>), ao qual \u00e9 chamada, como sinal a remediar&nbsp;<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>\u201d. Respostas, sempre insuficientes, s\u00e3o a fantasia, que oferece um falso ser e, os sintomas, sejam eles pensados como obje\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem imposta pelos discursos, seja como solu\u00e7\u00e3o \u00e0 falta de rela\u00e7\u00e3o sexual, seja como gozo dos tra\u00e7os un\u00e1rios. S\u00e3o estas respostas \u00e0s quais aponta a psican\u00e1lise no n\u00edvel da verdade e do dizer verdadeiro dos uns de gozo do inconsciente real. \u00c9 isto o que marca a via \u00e9tica da an\u00e1lise, n\u00e3o somente por atravessar o horror de saber, mas porque permite tomar posi\u00e7\u00e3o frente ao que \u00e9 mais estrutural e estruturante.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o final de an\u00e1lise implica um passo pela destitui\u00e7\u00e3o subjetiva, via o saber, \u00e9 inevit\u00e1vel um tempo de ang\u00fastia que implica um esfor\u00e7o a mais por parte do analisante e, do lado do analista, n\u00e3o ceder de seu lugar. O trabalho com o moinho das palavras permitir\u00e1 reconhecer-se a\u00ed, saber-se constitu\u00eddo por essa mat\u00e9ria angustiante. O dispositivo permite uma sa\u00edda, faz a ang\u00fastia falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dispositivo sempre aberto \u00e0 possibilidade de sua imin\u00eancia, posto que o real \u00e9 infind\u00e1vel. Assim, a ang\u00fastia \u00e9 um afeto que, entre outros, n\u00e3o engana sobre o final de uma an\u00e1lise, \u00e9 sinal da aproxima\u00e7\u00e3o desse real inomin\u00e1vel, ap\u00f3s as voltas ditas da verdade mentirosa; n\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo, mas, sim, \u00edndice do caminho para a porta de sa\u00edda, o que implica o passo necess\u00e1rio pela destitui\u00e7\u00e3o subjetiva \u00e0 qual a mesma linguagem o submeteu, mas desta vez pela via do saber que, necessariamente, tem efeitos na redu\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se poetizar a ang\u00fastia, tal como em Werther: \u201cN\u00e3o reconheces a voz da criatura extenuada, desfalecida, que afunda sem rem\u00e9dio\u2026?\u201d, mas cabe aos analistas dar-lhe o estatuto estruturante que lhe corresponde, se pretendem capt\u00e1-la em seus pacientes, quando o percurso a faz surgir ou quando se encontra na entrada por um advento do real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Beatriz Elena Maya R.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o<\/em>, <strong><em>Ingrid Porto de Figueiredo<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Lacan, J Observa\u00e7\u00f5es sobre o relat\u00f3rio de Daniel Lagache: Psican\u00e1lise e estrutura da personalidade. In: Escritos<br><a id=\"_ftn2\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Lacan, J. Semin\u00e1rio 6 O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<br><a id=\"_ftn3\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Laca, J. Semin\u00e1rio 22 RSI. Li\u00e7\u00e3o de 10 de dezembro de 1974, in\u00e9dito<br><a id=\"_ftn4\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Ibid, Li\u00e7\u00e3o de 13 de maio de 1975<br><a id=\"_ftn5\" href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Lacan, J. Semin\u00e1rio 6 O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading alignwide\"><strong>Fragmento 4 \u2013 <em>Uma breve nota sobre tradu\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><em>Traduttore, traditore<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Assim diz Freud em seu livro sobre os <em>Chistes <\/em>[<em>jokes<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>]<em> e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente<\/em> (Freud, 1905, vol. VIII, p. 34), que o tradutor \u00e9 um traidor. Contudo isso n\u00e3o \u00e9 uma brincadeira para o tradutor, mas uma realidade que o tradutor enfrenta devido \u00e0s inevit\u00e1veis dificuldades apresentadas pelas particularidades de cada l\u00edngua, o papel crucial desempenhado pela met\u00e1fora e meton\u00edmia e o chamado jogo de palavras. Pode-se, afinal, brincar com a l\u00edngua, trocar algumas letras, e \u00e9 essa maneabilidade, segundo Freud, que permite o prazer obtido com um chiste, com a liberta\u00e7\u00e3o do absurdo [<em>nonsense<\/em>] e o levantamento da inibi\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que Lacan levou a maneabilidade da linguagem um passo adiante com seu uso inventivo e instrutivo de neologismos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>James Strachey, tradutor de Freud, conta-nos um pouco sobre o problema que enfrentou ao traduzir \u201c<em>der Witz<\/em>\u201dem sua tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas de <em>Chistes e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente<\/em> (Freud, 1905, vol. VIII, p. 6-7).Observou que, por uma quest\u00e3o de coer\u00eancia, uma concess\u00e3o se fazia necess\u00e1ria. A palavra \u201c<em>wit<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, ou &#8220;<em>witty<\/em>&#8220;, em ingl\u00eas,tem um significado muito mais restrito, referindo-se mais a um tipo refinado ou intelectual de humor. Tal dificuldade implicava que nem a palavra \u201c<em>joke<\/em>\u201d nem \u201c<em>wit\u201d<\/em> se encaixavam perfeitamente para o tradutor.&nbsp; A palavra\u201c<em>joke<\/em>\u201d tinha um significado mais amplo que permitia ao leitor fazer sua pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o, mesmo que, em alguns casos, a tradu\u00e7\u00e3o estivesse incorreta. Para Strachey, uma vez adotada a palavra inglesa, a coer\u00eancia no uso era importante.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim tamb\u00e9m acontece com a palavra alem\u00e3 \u201c<em>Angst<\/em>\u201d<em>.<\/em> Strachey comenta diretamente sobre a tradu\u00e7\u00e3o de \u201c<em>Angst<\/em>\u201dpara o ingl\u00eas (Freud, 1895, vol. III, p. 116). Assim como \u201c<em>anxiety<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, no ingl\u00eas,<em> \u201cAngst<\/em>\u201d \u00e9 uma palavra bastante comum em alem\u00e3o. No entanto, o que parecia importante para Strachey era que a tradu\u00e7\u00e3o tinha que refletir o que era o uso psiqui\u00e1trico de Freud da palavra \u201c<em>Angst<\/em>\u201d<em>, <\/em>que estava presente em palavras como \u201c<em>Angstneurose<\/em>\u201d<em>.<\/em>&nbsp; Isso levou Strachey a usar a palavra \u201c<em>anxiety<\/em>\u201d, a despeito de ter usos mais amplos em ingl\u00eas.&nbsp; Strachey nos diz que o uso psiqui\u00e1trico da palavra \u201c<em>anxiety<\/em>\u201d remonta a meados do s\u00e9culo XVII e, assim como \u201c<em>Angst<\/em>\u201d<em>,<\/em> seu uso psiqui\u00e1trico est\u00e1 refletido em sua etimologia.&nbsp; Ambos t\u00eam uma refer\u00eancia \u00e0 constri\u00e7\u00e3o e \u00e0 caracter\u00edstica psicol\u00f3gica em quest\u00e3o (<em>Angst &#8211; eng: estreitar, restringir; anxiety \u2013 angere: apertar, sufocar<\/em>).&nbsp; A palavra em ingl\u00eas \u201c<em>anguish<\/em>\u201d tamb\u00e9m tem a mesma raiz etimol\u00f3gica de \u201c<em>anxiety<\/em>\u201d e \u201c<em>Angst<\/em>\u201d<em>, <\/em>mas Strachey afirmou que aquela refletia uma estado psicol\u00f3gica mais aguda. Strachey faz concess\u00f5es ao usar \u201c<em>anxiety<\/em>\u201dno lugar de \u201c<em>Angst<\/em>\u201d<em>,<\/em> uma tradu\u00e7\u00e3o mais t\u00e9cnica, caracterizada por um elemento antecipat\u00f3rio e pela aus\u00eancia de um objeto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Anxiety<\/em>\u201d como uma tradu\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas para\u201c<em>Angst<\/em>\u201d \u00e9 uma concess\u00e3o. A ang\u00fastia[<em>anxiety<\/em>] tornou-se uma das queixas mais frequentes e aparentes na cl\u00ednica psicanal\u00edtica moderna. Como na \u00e9poca de Freud, ela pode aparecer de v\u00e1rias maneiras, de modo que tem se tornado cada vez mais dif\u00edcil de saber o que o sujeito pretende quando se diz angustiado. Seguindo Freud, Lacan vincula a ang\u00fastia ao real, \u201c<em>Hilflosigkeit<\/em>\u201d diante do que n\u00e3o pode ser falado.&nbsp; A ang\u00fastia \u00e9, como Lacan a chamou, um afeto excepcional. \u00c9 o afeto que n\u00e3o engana, justamente por n\u00e3o ter objeto poss\u00edvel, mas um objeto imposs\u00edvel, o <em>objeto a<\/em>.&nbsp; Devido \u00e0 concess\u00e3o e ao uso mais amplo da palavra \u201c<em>anxiety<\/em>\u201d<em>,<\/em> cabe, portanto, a n\u00f3s, analistas na cl\u00ednica, descobrir o que o paciente est\u00e1 falando quando se refere ao significante \u201c<em>anxiety<\/em>\u201d<em>,<\/em> como muitos fazem na cl\u00ednica psicanal\u00edtica inglesa. \u00c9 preciso apurar se o real est\u00e1 em jogo quando se fala em \u201c<em>anxiety<\/em>\u201d<em>.<\/em> Quando um paciente chega falando de \u201c<em>anxiety<\/em>\u201d, n\u00e3o podemos supor que ele esteja falando de outro afeto menos excepcional por n\u00e3o usar a palavra \u201c<em>Angst\u201d <\/em>&nbsp;ou \u201c<em>anguish\u201d<\/em>, que \u00e9 menos comumente usada em ingl\u00eas.&nbsp; Tampouco podemos supor que haja um objeto real imposs\u00edvel em jogo.&nbsp; Falam de <em>ang\u00fastia<\/em>)<em> real<\/em>?&nbsp; Como faz\u00ea-la falar?<\/p>\n\n\n\n<p>O uso da palavra \u201c<em>anxiety<\/em>\u201dtem uma resson\u00e2ncia para quem l\u00ea e estuda Freud e Lacan em ingl\u00eas. Podemos ter herdado essa tradu\u00e7\u00e3o com relut\u00e2ncia, mas a coer\u00eancia, quando precisamos nos tornar o traidor, permanece apropriada. Estou ansiosa para uma discuss\u00e3o animada sobre o tema em Paris.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Carmelo Scuderi<\/em><\/strong><em>, Melbourne, Setembro 2023<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o<\/em> : <strong><em>Leonardo Pimentel<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> NT: Em ingl\u00eas, chiste, \u201c<em>Witz\u201d<\/em>, foi traduzido por \u201c<em>joke<\/em>\u201d, que significa brincadeira, piada, anedota.<br><a id=\"_ftn2\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> NT: O termo \u201c<em>wit\u201d<\/em> significa sagacidade, ast\u00facia, perspic\u00e1cia.<br><a id=\"_ftn3\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> NT: A despeito dos outros termos para Angst, em ingl\u00eas, Strachey optou por \u201c<em>anxiety<\/em>\u201d, que \u00e9 mais frequentemente utilizado com o sentido de ansiedade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading alignwide\"><strong>Fragmento 5 \u2013 <em>A ang\u00fastia na aritm\u00e9tica sexuada<\/em><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Como assinalado por Patrick Barillot no Argumento ao tema desse Encontro Internacional: a ang\u00fastia \u00e9 \u00edndice do real enigm\u00e1tico do desejo pela participa\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em> que \u00e9, por sua vez, sua \u00fanica tradu\u00e7\u00e3o subjetiva, no que se refere ao amor e ao desejo.<\/p>\n\n\n\n<p>A val\u00eancia f\u00e1lica, entendida em termos l\u00f3gicos, f(x), imprime sua for\u00e7a nos debates atuais sobre a sexua\u00e7\u00e3o e os diferentes semblantes que articulam esse n\u00f3 entre o desejo, o gozo e o amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Um fragmento da ang\u00fastia feminina \u00e9 destacado nos \u00faltimos cap\u00edtulos do Semin\u00e1rio 10, &#8220;A Ang\u00fastia&#8221;&nbsp;<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, em particular com rela\u00e7\u00e3o ao desejo e ao gozo. Depois de situar o Outro real como aquele que especifica o gozo e de acrescentar que a lei, que constitui o desejo, n\u00e3o diz respeito a esse Outro a n\u00e3o ser excentricamente do lado do objeto <em>a,<\/em> Lacan pronuncia: a mulher se revela superior no campo do gozo porque seu v\u00ednculo com o desejo \u00e9 mais frouxo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 no final desse Semin\u00e1rio onde Lacan, alinhando-se com Kierkegaard, dir\u00e1 que as mulheres s\u00e3o mais angustiadas do que os homens, que elas s\u00e3o mais angustiadas na dial\u00e9tica do desejo e do amor. Isso \u00e9 um fato de casu\u00edstica na psican\u00e1lise. Frequentemente elas se consultam por problemas amorosos. As diferentes circunst\u00e2ncias e \u00e9pocas da vida n\u00e3o disfar\u00e7am esse fato: as rela\u00e7\u00f5es de amor, desejo e gozo em termos de ang\u00fastia.<\/p>\n\n\n\n<p>Colette Soler tratou desse assunto em diferentes ocasi\u00f5es. Estou interessada em destacar o que ela chama de cl\u00ednica diferencial, referindo-se \u00e0 ang\u00fastia: uma esp\u00e9cie de &#8220;aritm\u00e9tica sexuada\u201d&nbsp;<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. &#8220;. Tomarei apenas um de seus recortes sobre o assunto, quando ela adverte que a ang\u00fastia da mulher pode ser devida ao fato dela n\u00e3o ser uma lagartixa, ou seja, diante do enigma do desejo do Outro, a mulher \u00e9 mais angustiada porque, n\u00e3o tendo um objeto para ceder, o que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 ela mesma. Essa afirma\u00e7\u00e3o se sustenta pelo que Lacan articulou, no final do Semin\u00e1rio, sobre a cess\u00e3o do objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Lacan, a partir de 1972, aprofundar\u00e1 esse tema da aritm\u00e9tica sexuada propondo as f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o. Considero que o final do Semin\u00e1rio 10 &#8220;Ang\u00fastia&#8221; \u00e9 um de seus antecedentes. Quase 10 anos mais tarde, no Aturdito, tendo Frege como refer\u00eancia, ele dir\u00e1 que \u00e9 por essa fun\u00e7\u00e3o, \u0085x, que os seres falantes responder\u00e3o de acordo com a maneira de fazer a\u00ed seu argumento&nbsp;<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso certamente inclui a val\u00eancia f\u00e1lica a que me referi anteriormente, que est\u00e1 no centro da disc\u00f3rdia&#8230; da sexua\u00e7\u00e3o. Seja para o universal &#8220;Para todo x, f(x)&#8221; ou para o n\u00e3o-todo. Essa val\u00eancia f\u00e1lica \u00e9 v\u00e1lida para todos os <em>falantesseres<\/em>, mesmo que alguns possam, n\u00e3o-todo, responder ao referencial dessa fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os fios de tens\u00e3o, no debate atual sobre as identidades sexuadas, dificilmente podem omitir o valor do signo da ang\u00fastia &#8211; o real em quest\u00e3o &#8211; com rela\u00e7\u00e3o a essa aritm\u00e9tica que indica que n\u00e3o h\u00e1 como faz\u00ea-la falar sem passar por uma escuta <em>l\u00f3gica<\/em> que integre a fun\u00e7\u00e3o, f(x), nas afirma\u00e7\u00f5es sobre desejo, gozo e amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma observa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, \u00e9 que aqueles que s\u00e3o ordenados apenas na val\u00eancia f\u00e1lica est\u00e3o \u00e0 merc\u00ea da ang\u00fastia, uma vez que os h\u00e1bitos de pot\u00eancia e impot\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o suficientes para responder \u00e0 impossibilidade do enigma do desejo do Outro. Aqueles que n\u00e3o-todo se agenciam na val\u00eancia f\u00e1lica podem estar \u00e0 merc\u00ea da ang\u00fastia por causa do efeito da estranheza do gozo enigm\u00e1tico, mas podem, no entanto, responder por meio do poder da palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece-me que, em ambas as situa\u00e7\u00f5es, fazer a ang\u00fastia falar \u00e9 precisamente dar origem ao desenvolvimento das vers\u00f5es da puls\u00e3o nas quais o sintoma e o fantasma s\u00e3o articulados. \u00c9 um passo al\u00e9m da estranheza, sabendo sobre ela e contando com ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Sandra Berta<\/em><\/strong><em>, FCL-S\u00e3o Paulo, Brasil<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> J. Lacan (1963). O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.<br><a id=\"_ftn2\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> C. Soler. Los afectos lacanianos. Buenos Aires: Letra Viva, p. 47.<br><a id=\"_ftn3\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> J. Lacan (1972). O aturdito. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pp. 448-497.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading alignwide\"><strong>Fragmento 6 \u2013 <em>\u201cA ang\u00fastia \u00e9 bem o sintoma tipo de qualquer advento do real&nbsp;<\/em><\/strong><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a><strong><em>\u201d<\/em><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A ang\u00fastia <em>n\u00e3o<\/em> \u00e9 <em>sem<\/em> objeto&nbsp;<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. H\u00e1 algo an\u00e1logo \u00e0quilo de que a ang\u00fastia \u00e9, no sujeito, o sinal. Esse \u00e9 o sentido do <em>n\u00e3o<\/em> \u00e9 <em>sem<\/em> da f\u00f3rmula de Lacan, que revela que isso n\u00e3o falta, esse algo an\u00e1logo ao objeto. Mas o <em>n\u00e3o<\/em> <em>\u00e9 sem <\/em>n\u00e3o o designa. Pressup\u00f5e, portanto, a sustenta\u00e7\u00e3o do fato da aus\u00eancia&nbsp;<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Um fragmento enunciado por um analisante: \u201c&#8230; se orientava enquanto falava\u201d. Questionando que garantia haveria na associa\u00e7\u00e3o livre, Lacan prossegue dizendo que o sentido de qualquer enunciado \u201cse orienta em dire\u00e7\u00e3o \u00e0quele furo no real [&#8230;] que permite que o simb\u00f3lico fa\u00e7a a\u00ed um n\u00f3&nbsp;<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>\u201d. Falando da apreens\u00e3o da psican\u00e1lise no n\u00f3, diz: \u201co n\u00f3 constitui o negativo da religi\u00e3o\u201d. E acrescenta: \u201cN\u00e3o cremos no objeto\u201d, e reitera, \u201cmas constatamos o desejo e, dessa constata\u00e7\u00e3o do desejo, induzimos a causa como objetivada&nbsp;<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>\u201d. Portanto, ele n\u00e3o cede lugar \u00e0 inclina\u00e7\u00e3o religiosa, mas afirma o caminho da l\u00f3gica que permite que o objeto seja induzido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA ang\u00fastia, sintoma\u201d, da ep\u00edgrafe, pode, portanto, ser entendida como o sinal de todo \u201cadvento do real\u201d. Lacan evoca o advento do real pela primeira vez em \u201cTelevis\u00e3o&nbsp;<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>\u201d, situando-o como um efeito da ci\u00eancia. Ele introduz esse termo em um contexto em que o evento de corpo, ou seja, o gozo de um corpo vivente, n\u00e3o est\u00e1 presente. Isso levanta a quest\u00e3o de definir o que ele chama de <em>advento<\/em> do real no campo da psican\u00e1lise. Em contrapartida, ele desenvolveu muito o <em>evento<\/em> de corpo. Na \u201cConfer\u00eancia de Genebra sobre o sintoma<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>\u201d, descreve o evento de corpo gra\u00e7as ao qual Freud descobriu o inconsciente, a partir da quest\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a ang\u00fastia e o sexo. Hans, com sua primeira ere\u00e7\u00e3o, \u00e9 confrontado com uma experi\u00eancia de gozo, um evento de corpo, o encontro com o real sexual que coloca a fobia em a\u00e7\u00e3o. Assim, ao substituir o objeto da ang\u00fastia por um significante que d\u00e1 medo, se produz o advento de um primeiro <em>fato<\/em> do inconsciente-linguagem, o cavalo do gozo, o sintoma-gozado que constitui o inconsciente que n\u00e3o representa o sujeito, mas que determina seu gozo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 o para\u00edso que se perde. \u00c9 um certo objeto&nbsp;<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>\u201d. Talvez, em um n\u00edvel formal, n\u00e3o fosse correto dizer que o significante \u00e9 produzido pelo sujeito, mas a fun\u00e7\u00e3o significante dada a esse objeto \u00e9 determinada pela efic\u00e1cia do sujeito em fazer falar a ang\u00fastia, e \u00e9 isso que faz com que a l\u00edngua evolua. No decorrer do Semin\u00e1rio <em>A<\/em> <em>ang\u00fastia&nbsp;<\/em><a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, Lacan formula que \u201ca ang\u00fastia \u00e9 um afeto do sujeito [&#8230;] que n\u00e3o engana&nbsp;<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>\u201d. Ele a ordena de acordo com a estrutura, a do sujeito falante, que se determina por um efeito do significante. \u00c9 aqui que a ang\u00fastia \u00e9 o sinal, o testemunho de uma hi\u00e2ncia essencial que a doutrina freudiana esclarece&nbsp;<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Essa estrutura da rela\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia com o desejo, essa dupla hi\u00e2ncia entre o sujeito e o objeto ca\u00eddo do sujeito, na ang\u00fastia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o real \u00e9 o fora do simb\u00f3lico, quais s\u00e3o as vias de acesso ao real na experi\u00eancia anal\u00edtica? Em primeiro lugar, o que n\u00e3o vai bem na vida, o que recai sobre n\u00f3s, essa \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de traumatismo, e depois h\u00e1 os caminhos tra\u00e7ados pela linguagem. Qualquer trauma, e Freud o coloca na origem da neurose, afeta, n\u00e3o diretamente o sujeito, mas seu corpo. \u201cO acontecimento de um real somente \u00e9 advento se o aporte significante a ele se acrescentar\u201d, assim o advento propriamente dito seria: \u201ca inven\u00e7\u00e3o do significante pela fobia e, em seguida, sobre esse eixo, a inven\u00e7\u00e3o freudiana do inconsciente e o advento da psican\u00e1lise como novo discurso&nbsp;<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Diego Mautino<\/em><\/strong><em>, Roma, outubro de 2023<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Leonardo Pimentel<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Lacan, J. (Roma, 1974), \u201cA Terceira\u201d. <em>In<\/em>: Lacan, J. Textos complementares ao Semin\u00e1rio 22 \u2013 RSI (1974-1975) Edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o comercial destinada aos membros da EPFCL-Brasil, 2022, FCL-SP. \u201c<em>Onde fica engra\u00e7ado, \u00e9 apenas quando os pr\u00f3prios sabich\u00f5es s\u00e3o tomados \u2013 evidentemente n\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u2013 tomados por uma ang\u00fastia; isso \u00e9 bastante esclarecedor. \u00c9 bem o sintoma tipo de qualquer advento do Real<\/em>\u201d.<br><a id=\"_ftn2\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Cf. \u201c[&#8230;] a ang\u00fastia: <em>ela n\u00e3o \u00e9 sem objeto<\/em>\u201d, Lacan, J. (1963) <em>Introdu\u00e7\u00e3o aos Nomes-do-Pai. In<\/em>: \u201cNomes-do-Pai\u201d, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 60. Ver tamb\u00e9m: Lacan, J. (1969-1970) O Semin\u00e1rio, livro XVII,<em> O avesso da psican\u00e1lise<\/em>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 55, 1992.<br><a id=\"_ftn3\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Cf. Lacan, J. (1968-1969), O Semin\u00e1rio, livro XVI, De<em> um Outro ao outro<\/em>.Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 281.<br><a id=\"_ftn4\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Cf. \u201cC\u2019est<em> en fin de compte autour de \u00e7a que le sens de n\u2019importe quoi de ce qui peut s\u2019\u00e9noncer, s\u2019oriente : il s\u2019oriente vers ce trou dans le r\u00e9el qui est le trou de&#8230; qui justement permet au symbolique d\u2019y faire n\u0153ud.<\/em>\u201d<em>, \u201cA fin de cuentas, es alrededor de eso que el sentido de lo que sea que pueda enunciarse se orienta: se orienta hacia ese agujero en el real que es el agujero de\u2026 que justamente permite al simb\u00f3lico hacer nudo all\u00ed\u201d. <\/em>Lacan, J. (30 de mar\u00e7o de 1974) Confer\u00eancia no Centro Cultural Franc\u00eas. Vers\u00e3o bil\u00edngue franc\u00eas-espanhol, <em>in<\/em>: <a href=\"https:\/\/ecole-lacanienne.net\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/30-03-1974.pdf\">https:\/\/ecole-lacanienne.net\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/30-03-1974.pdf<\/a><br><a id=\"_ftn5\" href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Lacan, J. (1975-1976), O Semin\u00e1rio, livro XXIII, <em>O Sinthome<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 37.<br><a id=\"_ftn6\" href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> Lacan, J. (1974) \u201cTelevis\u00e3o\u201d. <em>In: Outros escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 535.<br><a id=\"_ftn7\" href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> Lacan, J. (1975) \u201cConfer\u00eancia de Genebra sobre o sintoma\u201d. <em>In<\/em>:<em> <\/em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. S\u00e3o Paulo, n. 23, 1998, pp. 6-16.<br><a id=\"_ftn8\" href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> \u00ab <em>Ce n\u2019est pas le paradis qui est perdu. C\u2019est un certain objet.<\/em>&nbsp;\u00bb Lacan, J. (1965-1966), O Semin\u00e1rio, livro XIII, <em>O objeto da psican\u00e1lise<\/em>, Li\u00e7\u00e3o de 22 de junho de 1966, in\u00e9dito. [Tradu\u00e7\u00e3o nossa]<br><a id=\"_ftn9\" href=\"#_ftnref9\">[9]<\/a> Lacan, J. (1962-1963) O Semin\u00e1rio, livro X, <em>A ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.<br><a id=\"_ftn10\" href=\"#_ftnref10\">[10]<\/a> Lacan, J. (1963) <em>Introdu\u00e7\u00e3o aos Nomes-do-Pai. In<\/em>: \u201cNomes-do-Pai\u201d, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 59.<br><a id=\"_ftn11\" href=\"#_ftnref11\">[11]<\/a> Sigmund Freud, &#8220;A Terra Prometida&#8221;, carta in\u00e9dita de Freud ao Dr. Chaim Koffler, 26 de fevereiro de 1930.<br><a id=\"_ftn12\" href=\"#_ftnref12\">[12]<\/a> Soler<em>, <\/em>C. (2015-2016) <em>Adventos do real: da ang\u00fastia ao sintoma<\/em>. S\u00e3o Paulo: Aller Editora, 2018, p. 222.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading alignwide\"><strong>Fragmento 7<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Fazer falar a ang\u00fastia, \u00e9 tudo o que temos feito desde nossa origem. A ang\u00fastia, \u201centre enigma e certeza\u201d, \u00e9, quanto \u00e0 ela, muda, um \u201cfunil temporal\u201d, uma \u201cpetrifica\u00e7\u00e3o\u201d, um \u201csil\u00eancio aterrador\u201d, como disse Lacan. Vista hoje, deste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, a ang\u00fastia se imp\u00f5e como o afeto crescente do Antropoceno. \u00c9 isso que diz o grande clamor contempor\u00e2neo com vozes t\u00e3o diversas. Por\u00e9m antes, com Heidegger por exemplo, ela era vista como a experi\u00eancia metaf\u00edsica dos falantes por excel\u00eancia, se o \u201cdiante de qu\u00ea<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u201d da ang\u00fastia era de fato \u201cser-no-mundo lan\u00e7ado<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u201d. Facticidade da exist\u00eancia. Esta j\u00e1 foi uma mudan\u00e7a na ancoragem da ang\u00fastia, que pode ser lida em nossa hist\u00f3ria, digamos, a partir de Lutero, para marcar algumas balizas. Uma passagem que vai das ang\u00fastias do penitente da Idade M\u00e9dia ou, mais originalmente, do sacrif\u00edcio de Abra\u00e3o, at\u00e9 o homem sem Deus do nosso tempo. Blaise Pascal, perante o \u201cc\u00e9u estrelado\u201d, emitiu o grito deste abalo: \u201cO sil\u00eancio desses espa\u00e7os eternos me apavora\u201d, sem que saibamos se se trata ainda do pavor perante um deus que se cala ou perante um deus que desapareceu. Sem d\u00favida por isso a aposta foi, no fundo, t\u00e3o necess\u00e1ria. Um s\u00e9culo depois, Kierkegaard, com sua f\u00f3rmula da \u201cang\u00fastia como condi\u00e7\u00e3o do pecado\u201d, fazia da pr\u00f3pria possibilidade, o primeiro \u201cdiante de qu\u00ea\u201d da ang\u00fastia, e j\u00e1 realizava, assim, a facticidade da exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso para nos lembrar que, apesar do seu valor ontol\u00f3gico bem estabelecido, o que fazemos a ang\u00fastia dizer \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. E assim se coloca nossa quest\u00e3o sobre a varia\u00e7\u00e3o propriamente psicanal\u00edtica quanto \u00e0 amarra\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Heidegger evoca o \u201cdiante de qu\u00ea\u201d da ang\u00fastia como \u201cser-no-mundo lan\u00e7ado<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u201d e que Freud<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> fala de <em>Hilflosigkeit<\/em>, a derreli\u00e7\u00e3o do ser sem recurso, as resson\u00e2ncias parecem semelhantes. A \u00fanica diferen\u00e7a, no entanto, \u00e9 que Freud, que n\u00e3o era em nada metaf\u00edsico, acrescenta com insist\u00eancia o \u201cdiante de qu\u00ea\u201d de um perigo bem atual, origin\u00e1rio, a primeira ferida, o traumatismo, como ele lhe chama, a fonte inesgot\u00e1vel das ang\u00fastias perpetuadas da neurose e, mais amplamente, de todos os falantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Que sucesso para esta teoria da ancoragem da ang\u00fastia no traumatismo! Ainda existem, segundo a vox populi atual, sofrimentos ps\u00edquicos que n\u00e3o estariam ligados a um traumatismo \u2013 como uma exonera\u00e7\u00e3o de tudo, sem d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p>Lacan n\u00e3o parece dizer que n\u00e3o, \u201co que temos que surpreender\u201d, atrav\u00e9s das surpresas da associa\u00e7\u00e3o livre, \u201c\u00e9 algo cuja incid\u00eancia foi marcada como trauma<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>\u201d. Terreno aparentemente conhecido na psican\u00e1lise, mas Lacan evoca, logo em seguida, a menos conhecida \u201cimbecilidade<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>\u201d que esta incid\u00eancia traum\u00e1tica implica \u2013 caso postulemos que ela prov\u00e9m da realidade das situa\u00e7\u00f5es. Isso obrigar-nos-\u00e1 a interrogar novamente, a causa&#8230; que n\u00e3o \u00e9 imbecil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Colette Soler<\/em><\/strong><em>, janeiro de 2024<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o&nbsp;: <strong>Miriam Ximenes Pinho-Fuse<\/strong><br>Revis\u00e3o&nbsp;: <strong>Sandra Berta<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> \u201cA ang\u00fastia tem uma inconfund\u00edvel rela\u00e7\u00e3o com a <em>expectativa<\/em>: \u00e9 ang\u00fastia <em>diante de<\/em> algo\u201d [Freud, S. (1926\/2014). Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia. In <em>Obras completas<\/em> (v. 17, p. 114, grifo do autor). Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras].<br><a id=\"_ftn2\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Heidegger, M.&nbsp; <em>Ser e tempo<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00e1rcia S\u00e1 C. Schuback. Petr\u00f3polis, Rio de Janeiro: Vozes, 2005. \u00a7 41, p. 255.<br><a id=\"_ftn3\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> \u201c&#8230; a ang\u00fastia se angustia com o ser-no-mundo lan\u00e7ado\u201d (Heidegger, M, <em>op. cit<\/em>., \u00a7 41, p. 255).<br><a id=\"_ftn4\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Freud, S. (1926\/2014), <em>op. cit<\/em>. p. 115.<br><a id=\"_ftn5\" href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Lacan, J. (1967) Da psican\u00e1lise em suas rela\u00e7\u00f5es com a realidade. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 352.<br><a id=\"_ftn6\" href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> Ibid. \u00ab&nbsp;estupidez\u201d, p. 352.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading alignwide\"><strong>Fragmento 8 \u2013 <em>Ang\u00fastia\/s no singular plural<\/em><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Gostaria de precisar: a ang\u00fastia \u00e9 singular, em todos os sentidos da palavra. Mas os seus modos de express\u00e3o s\u00e3o plurais, diferentes e tamb\u00e9m particulares, conforme as estruturas cl\u00ednicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que \u00e9 a ang\u00fastia? Um afeto que n\u00e3o engana, diz Lacan, o que o diferencia dos outros afetos propensos ao extravio, \u00e0 confus\u00e3o, como o amor ou o \u00f3dio, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>A ang\u00fastia, portanto, afeta o sujeito desde seu despertar para a vida. Spitz identificou-a com a chamada ang\u00fastia do 8\u00ba m\u00eas. O beb\u00ea reage com desconfian\u00e7a diante de uma pessoa desconhecida. Manifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel de inquieta\u00e7\u00e3o diante do desejo do Outro, <em>O<\/em>, que representa qualquer outro, <em>o<\/em>, da linguagem. O que (ele) quer de mim? Qual \u00e9 o desejo do O\/outro? Eis a crian\u00e7a entrando no tormento da obscuridade dos la\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>O desejo do sujeito funda-se no desejo que lhe \u00e9 atribu\u00eddo pelo o\/Outro. Mas a sua tarefa \u00e9 n\u00e3o fundir-se nele e confundir-se com ele, para que possa encontrar e viver o seu pr\u00f3prio caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>A ang\u00fastia n\u00e3o \u00e9 sem objeto que a causa, mas tem um objeto imposs\u00edvel de definir e, portanto, de dominar. Lacan chama-lhe de <em>objeto a<\/em>. Ele \u00e9 irrepresent\u00e1vel, um tra\u00e7o virtual de um clar\u00e3o que revelaria a voracidade desejante do O\/outro, ao mesmo tempo que a tenta\u00e7\u00e3o de a isso se submeter.<\/p>\n\n\n\n<p>Como faz\u00ea-la falar \u00e9 a quest\u00e3o proposta pelo Encontro Internacional. Encontrando no vasto mundo um objeto, existente e\/ou imagin\u00e1rio, que tenha um nome, ou que o sujeito nomeie com uma inven\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica (como o Babacar da pequena Piggle, paciente de Winnicott). A ang\u00fastia tem, a partir da\u00ed, um nome, o seu nome de fobia que tranquiliza ao localizar o medo desvinculado da vontade obscura do O\/outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em><strong>Martine Men\u00e8s, <\/strong>Janeiro de 2024<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o<\/em>: <strong>Miriam Ximenes Pinho-Fuse<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading alignwide\"><strong>Fragmento 9 \u2013 <em>A ang\u00fastia nas mulheres<\/em><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Viena da virada do s\u00e9culo XX pode ser considerada como representativa da express\u00e3o da ang\u00fastia nas mulheres, diferente do que j\u00e1 fora. O que elas querem quando brigam por seus direitos sociais e pol\u00edticos? O que se passa com elas quando se apresentam com problemas no corpo para os quais os m\u00e9dicos n\u00e3o encontram causas org\u00e2nicas? Diante desse novo sintoma, Freud prop\u00f5e a psican\u00e1lise, um novo tratamento no qual o sintoma \u00e9 atenuado gra\u00e7as \u00e0 revela\u00e7\u00e3o de lembran\u00e7as recalcadas da inf\u00e2ncia. No entanto, ao redefinir o inconsciente, ele chocou seus contempor\u00e2neos com a ideia de que o sintoma e todas as outras forma\u00e7\u00f5es do inconsciente &#8211; sonhos, lapsos, atos falhos &#8211; tem um sentido sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Provavelmente influenciados pelas descobertas de Freud, os artistas do come\u00e7o do s\u00e9culo come\u00e7aram a apresentar a quest\u00e3o do erotismo de maneira in\u00e9dita, como Klimt, em seu quadro <em>Judith e a cabe\u00e7a de Holofernes<\/em>, baseado em um tema do Antigo Testamento. A jovem vi\u00fava Judith, em uma artimanha, se coloca no campo do hostil ex\u00e9rcito ass\u00edrio para seduzir seu chefe. Enquanto Holofernes, conquistado por sua beleza, se apressa em possui-la, Judith o mata, provocando a fuga em p\u00e2nico de suas tropas. Rompendo com a tradi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica do s\u00e9culo XIV, na qual Judith era representada como uma Maria, m\u00e3e de Jesus, Klimt acentuou seu rosto em um estado de satisfa\u00e7\u00e3o er\u00f3tica, o que provocou um esc\u00e2ndalo<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Sustentando negligentemente a cabe\u00e7a de Holofernes, que est\u00e1 apenas parcialmente vis\u00edvel, a Judith de Klimt est\u00e1 longe de encarnar o ideal de m\u00e3e da p\u00e1tria, animada pelo desejo de defender os Hebreus da fome.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que chocou tanto nesse quadro de Klimt? Seria o duplo aspecto da m\u00e3e descoberto por Freud, que \u00e9 ao mesmo tempo santa e prostituta? Ou seria a representa\u00e7\u00e3o de uma mulher dominando um homem, fazendo-o objeto de seu gozo f\u00e1lico de poder? Judith teria triunfado por conseguir projetar sobre Holofernes a ang\u00fastia ligada ao que Lacan chamou de &#8220;destitui\u00e7\u00e3o subjetiva&#8221;<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, enquanto momento em que o sujeito se sente reduzido ao corpo como instrumento das conquistas f\u00e1licas do Outro? Segundo Lacan, a ang\u00fastia aparece assim que a palavra n\u00e3o pode dar um sentido ao que \u00e9 vivido no corpo e que o sujeito sente que o desejo obscuro do Outro visa seu pr\u00f3prio ser. Se interpretamos assim sua satisfa\u00e7\u00e3o er\u00f3tica, a Judith de Klimt n\u00e3o parece evitar essa ang\u00fastia ao procurar Holofernes como Outro do sexo, com a morte como castra\u00e7\u00e3o suprema?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Praticando a psican\u00e1lise, Freud descobriu que as mulheres, desde a adolesc\u00eancia, podem sentir ang\u00fastia diante do desejo sexual dos homens, percebendo-o como uma agress\u00e3o. Freud d\u00e1 v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es para esse fen\u00f4meno. Uma das primeiras \u00e9 a de que na origem do sintoma se encontra uma como\u00e7\u00e3o sexual ligada a um acontecimento recalcado da inf\u00e2ncia, da natureza de um encontro com o desejo sexual do Outro ou com o desejo sexual pr\u00f3prio, como o ilustra o caso Emma.<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> A excita\u00e7\u00e3o carnal se transforma em ang\u00fastia em rela\u00e7\u00e3o ao estado de desamparo do sujeito, a&nbsp; <em>Hilflosigkeit <\/em>freudiana, traduzida por Lacan como uma falta no saber, que responderia \u00e0s quest\u00f5es do sujeito sobre o que se passa com ele e sobre o que o Outro quer dele. Dito de outro modo, Freud constatou a exist\u00eancia de teorias sexuais infantis nas quais o coito, desconhecido, \u00e9 interpretado pelo prisma da agress\u00e3o, essa sim conhecida. Ele tamb\u00e9m desenvolveu o conceito do complexo de \u00c9dipo e da castra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria associada a ele.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao definir a ang\u00fastia como &#8220;o sintoma tipo de todo advento do real&#8221; para todo ser falante, Lacan foi mais al\u00e9m das defini\u00e7\u00f5es freudianas que fazem da ang\u00fastia no homem o afeto do medo da castra\u00e7\u00e3o como perda do \u00f3rg\u00e3o de uni\u00e3o com a m\u00e3e e, na mulher, o afeto do medo da perda do amor do homem enquanto possuidor do \u00f3rg\u00e3o. No caso das mulheres, Lacan situa a causa da ang\u00fastia em seus encontros espec\u00edficos com o real do sexo. Por um lado, esse encontro coloca a mulher na posi\u00e7\u00e3o de ser objeto do desejo e do gozo do homem; por outro, ele pode exp\u00f4-la \u00e0 experi\u00eancia de um gozo suplementar, tipicamente feminino e n\u00e3o autoer\u00f3tico ou f\u00e1lico. H\u00e1 um contraste vis\u00edvel entre o quadro de Klimt e a escultura de Bernini representando o \u00eaxtase de Santa Tereza em um gozo mais al\u00e9m da possess\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Do ponto de vista das mulheres, a dificuldade est\u00e1 em reconhecer que para o homem, no amor, a mulher \u00e9 o sujeito e no desejo sexual, o objeto. Portanto, a ang\u00fastia da mulher \u00e9, em primeiro lugar, suscitada pelo fato de ser desejada enquanto objeto &#8220;mais-de-gozar&#8221;, uma parte do corpo, como no exemplo freudiano da &#8220;fatia do traseiro&#8221;. Em segundo lugar, o gozo tipicamente feminino que, ao contr\u00e1rio do gozo f\u00e1lico, \u00e9 imposs\u00edvel de se apreender no registro simb\u00f3lico, faz com que a mulher se sinta &#8220;Outra&#8221; para si mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo Lacan, o que permite ao homem responder \u00e0 ang\u00fastia diante do desejo do Outro do sexo, \u00e9 que &#8220;o objeto pode ser cedido&#8221;. No homem, o papel desse objeto <em>a <\/em>\u00e9 desempenhado pelo \u00f3rg\u00e3o f\u00e1lico e ceder, neste caso, implica sua detumesc\u00eancia ap\u00f3s o coito. Esta tem por fun\u00e7\u00e3o separar o sujeito do Outro e, portanto, traz al\u00edvio. Para uma mulher, essa detumesc\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o masculino pode trazer um al\u00edvio, mas ela n\u00e3o tem poder sobre isso. Para ela, n\u00e3o h\u00e1 a\u00ed outro objeto a ceder al\u00e9m de si mesma<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Al\u00e9m disso, seu gozo pr\u00f3prio \u00e9 enigm\u00e1tico, pois n\u00e3o \u00e9 causado por nenhum objeto e n\u00e3o se sabe nada dele, a n\u00e3o ser que ela o experimenta. Trata-se, ent\u00e3o, de um disfarce do real, no qual o real n\u00e3o \u00e9 nada seguro<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. A psican\u00e1lise de Lacan, ao colocar o acento sobre a quest\u00e3o da diferen\u00e7a dos sexos fundada sobre a diferen\u00e7a dos modos de gozo, introduz uma mudan\u00e7a radical em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise de Freud.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Interpretado como um fantasma do poder da mulher sobre o homem, o quadro de Klimt n\u00e3o fica ainda mais atual neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI? Hoje em dia, numa \u00e9poca em que os la\u00e7os humanos se reduzem em parte a rela\u00e7\u00f5es com objetos de consumo, os exemplos seriam numerosos. H\u00e1 aqueles presentes na linguagem contempor\u00e2nea, como quando uma jovem mulher diz sobre um homem &#8220;eu peguei ele&#8221;. Passemos para aqueles observ\u00e1veis clinicamente, quando uma mulher tem o sentimento de triunfar sobre seu homem gra\u00e7as ao seu sal\u00e1rio, seu intelecto, sua for\u00e7a f\u00edsica ou sua libido, ou quando ela seduz um homem se colocando de modo sexualmente atraente e depois lhe recusa seu corpo, ao desprezo do real do sexo masculino.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As mulheres que aderem \u00e0s ideias feministas atuais suscitam ansiedade nos homens, como demonstra uma pesquisa social<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a> e a experi\u00eancia cl\u00ednica. A quest\u00e3o da dissimetria dos sexos na sexualidade parece cada vez mais dif\u00edcil de abordar. Com a demanda por igualdade entre os sexos generalizada a todas as esferas da vida, ela se tornou politicamente incorreta. Entre os pontos de vista mais radicais, a ideia de colocar em quest\u00e3o a diferen\u00e7a dos sexos aparece explicitamente. O problema \u00e9 que as mulheres pagam o pre\u00e7o por seu encaixe ao gozo f\u00e1lico, o que pode se traduzir pelas dificuldades de construir rela\u00e7\u00f5es e de fundar uma fam\u00edlia, ou mesmo pela afirma\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o (vejam o sucesso da m\u00fasica <em>Flowers<\/em>, de Miley Cyrus, o manifesto feminista da gera\u00e7\u00e3o dos <em>milleniuns<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o que se coloca \u00e9 de saber se essa press\u00e3o social influencia o discurso anal\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Anna Wojakowska-Skiba<\/em><\/strong><em>, Vars\u00f3via, fevereiro de 2024<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Beatriz Chnaiderman<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a>. \u00ab Klimt et Schiele. Eros et Psych\u00e9 \u00bb, filme document\u00e1rio italiano realizado por Michele Mally, 2018.<br><a id=\"_ftn2\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a>. Lacan, J. (1967\/1970) Discurso na EFP 6 de dezembro de 1967. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pp. 265-287.<br><a id=\"_ftn3\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a>. Freud, S., (1950 [1895]) Projeto para uma Psicologia Cient\u00edfica. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o J. Salom\u00e3o. v. I. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 333-454.<br><a id=\"_ftn4\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a>. Lacan, J. (1962 \u2013 1963) O semin\u00e1rio, livro 10: <em>A ang\u00fastia<\/em>.<br><a id=\"_ftn5\" href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a>. Soler, C. (2011), <em>Os afetos Lacanianos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Aller Editora: 2022.<br><a id=\"_ftn6\" href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a>. Pesquisa de l\u2019Ipsos et de Global Institute for Women&#8217;s Leadership at King&#8217;s College London : https:\/\/www.ipsos.com\/en\/international-womens-day-global-opinion-remains-committed-gender-equality-half-now-believe-it<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading alignwide\"><strong>Fragmento 10 \u2013 <em>Como a psican\u00e1lise trata a ang\u00fastia?<\/em><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Na cl\u00ednica psicanal\u00edtica lacaniana, parte-se do princ\u00edpio de que \u201c<em>n\u00e3o h\u00e1 um tratamento-padr\u00e3o<\/em>\u201d, nem um protocolo para a o tratamento e de que \u201c<em>a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma terap\u00eautica como as outras\u201d<\/em> (1), j\u00e1 que seu objetivo primordial n\u00e3o \u00e9 a cura. Esse, ali\u00e1s, \u00e9 um conceito \u201c<em>muito vacilante<\/em>\u201d no \u00e2mbito anal\u00edtico. Lacan perguntar\u00e1 com ironia: <em>\u201cSer\u00e1 a psican\u00e1lise pura e simplesmente uma terap\u00eautica, um medicamento, um emplastro, um p\u00f3 de pirlimpimpim, que tudo cura? \u00c0 primeira vista, por que n\u00e3o? S\u00f3 que a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 absolutamente isso\u201d<\/em> (2). Apelar\u00e1 \u2013 atrav\u00e9s dessas formula\u00e7\u00f5es \u2013 a <em>\u201cum rigor \u00e9tico\u201d,<\/em> separando assim a psican\u00e1lise da psicoterapia. Freud tamb\u00e9m n\u00e3o colocou a cura em primeiro plano, tal como escreve a Abram Kardiner em 1927 (3).<\/p>\n\n\n\n<p>No semin\u00e1rio X, Lacan retoma o tema aludindo ao mal-entendido que se produziu entre alguns analistas ao propor que <em>\u201ca cura vinha por acr\u00e9scimo\u201d<\/em> (4), j\u00e1 que ele se referia \u00e0 metodologia, isto \u00e9, ao procedimento. Isso n\u00e3o exclui que n\u00e3o sejam estim\u00e1veis os efeitos anal\u00edticos de car\u00e1ter terap\u00eautico que se produzem na pr\u00e1tica, tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ang\u00fastia. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na psican\u00e1lise, a ang\u00fastia n\u00e3o \u00e9 concebida como um fen\u00f4meno an\u00f3malo da capacidade de ju\u00edzo e de adapta\u00e7\u00e3o ou como um afeto\/sintoma negativo que simplesmente \u00e9 preciso eliminar. A ang\u00fastia tem, sim, um valor e uma fun\u00e7\u00e3o primordial em distintos n\u00edveis. Entre outros, trata-se de um afeto fundamental \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o do <em>parl\u00eatre<\/em>, \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de um real que, em uma de suas vertentes, escapa \u00e0 representa\u00e7\u00e3o, mas orienta a experi\u00eancia anal\u00edtica. \u00c9 tamb\u00e9m um ponto de articula\u00e7\u00e3o entre o desejo e o gozo, al\u00e9m de colocar a pergunta sobre o desejo.<\/p>\n\n\n\n<p>A ang\u00fastia tem um valor epist\u00eamico e, sem ela, nada saber\u00edamos sobre o que h\u00e1 mais al\u00e9m do fantasma com o qual nos protegemos do real.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a ang\u00fastia se manifesta em todas as estruturas cl\u00ednicas sob diversas modalidades. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psicose, se pode haver \u201c<em>momentos fecundos<\/em>\u201d como nas neuroses, por vezes, a ang\u00fastia de que padecem alguns sujeitos pode levar a uma passagem ao ato irrevers\u00edvel. Um fragmento de um mon\u00f3logo de Sarah Kane, a prop\u00f3sito da ang\u00fastia, mostra esse sofrimento ps\u00edquico: <em>\u201c\u00c9 t\u00e3o terr\u00edvel essa dor que se sente, e n\u00e3o \u00e9 f\u00edsica. Todos os tratamentos psiqui\u00e1tricos interv\u00eam e levam em conta a parte f\u00edsica. Ent\u00e3o, te adormecem ou te excitam ou te relaxam ou te estimulam, mas nada pode aplacar esse sofrimento que n\u00e3o \u00e9 f\u00edsico (&#8230;) Trata-se de uma doen\u00e7a que procria nas dobras da minha mente\u201d<\/em> (&#8230;) e <em>\u201cda hist\u00f3ria de uma mente confinada em um corpo errado\u201d <\/em>(5). N\u00e3o parece que os psicof\u00e1rmacos servissem muito para avaliar seu sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem, se pensarmos em rela\u00e7\u00e3o a alguns casos de psicose, um uso \u00e9tico do f\u00e1rmaco pode ser favor\u00e1vel ao tratamento anal\u00edtico para alojar um lugar para a palavra?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Transitar, franquear a ang\u00fastia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m na cl\u00ednica atual, seja na entrada ou durante o tratamento, \u00e0s vezes ocorre a irrup\u00e7\u00e3o de uma ang\u00fastia intensa, no limite do insuport\u00e1vel, que pode entorpec\u00ea-la ou at\u00e9 mesmo interromp\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao tratamento da ang\u00fastia, n\u00e3o se trata de apontar diretamente \u00e0 sua cura, e sim transit\u00e1-la ou franque\u00e1-la, tratando-a de maneira indireta atrav\u00e9s do sintoma, ou seja, dando-lhe consist\u00eancia ou solidez \u2013 nos referimos fundamentalmente \u00e0 entrada \u2013 e fazendo uso da interpreta\u00e7\u00e3o como ato para possibilitar o deslocamento do saber inconsciente a partir da transfer\u00eancia. Assim, poder\u00e1 ter efeitos na ang\u00fastia e possibilitar\u00e1 ir cingindo esse real que a ang\u00fastia assinala.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando um sujeito no in\u00edcio, no dispositivo anal\u00edtico, fala da ang\u00fastia que sente, j\u00e1 tomou certa dist\u00e2ncia daquilo que experimenta e est\u00e1 mais do lado da sintomatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe lembrar que Lacan advertiu os analistas de que \u201c<em>a an\u00e1lise deve desangustiar, n\u00e3o desculpabilizar<\/em>\u201d e que \u201c<em>o desejo \u00e9 um rem\u00e9dio para a ang\u00fastia<\/em>\u201d (6) de modo que, nesse momento de seu ensino, trata-se de desangustiar apontando \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o do desejo, o qual ganhar\u00e1 outra perspectiva a partir de suas elabora\u00e7\u00f5es posteriores nas quais o ato anal\u00edtico pode ser uma resposta a um real que n\u00e3o \u00e9 represent\u00e1vel nem captur\u00e1vel pelo significante. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O analista, na entrada, conta com as entrevistas preliminares para a retifica\u00e7\u00e3o subjetiva, com a transfer\u00eancia, com a interpreta\u00e7\u00e3o, com o ato.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que, na cl\u00ednica atual, alguns casos apresentam maior dificuldade quanto \u00e0 retifica\u00e7\u00e3o subjetiva ou \u00e0 histeriza\u00e7\u00e3o e \u00e0 associa\u00e7\u00e3o livre. S\u00e3o alguns dos desafios que enfrentamos na cl\u00ednica em nossa civiliza\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Roser Casalprim<\/em><\/strong><em>, <\/em><em>5 de mar\u00e7o de 2024<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Maria Claudia Formigoni<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Lacan, J. (1955) Variantes do tratamento-padr\u00e3o. In: <em>Escritos<\/em>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 326.<\/li>\n\n\n\n<li>Lacan, J. (1967) <em>Meu ensino.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 20.<\/li>\n\n\n\n<li>Kardimer, A. <em>Mi an\u00e1lisis con Freud<\/em>. M\u00e9jico: Ed. Joaqu\u00edn Mortiz, 1979, p. 70.<\/li>\n\n\n\n<li>Lacan, J. (1962-1963) <em>O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 67.<\/li>\n\n\n\n<li>Kane, S. <em>Psicose 4:48<\/em> Online (arquivo digital dispon\u00edvel em literaturasuicidio.wordpress.com)<\/li>\n\n\n\n<li>Lacan, J. (1960 -1961) <em>O semin\u00e1rio, livro 8: a transfer\u00eancia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992, p. 357.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fragmento 1 \u2013 Antecedentes da pergunta A ang\u00fastia hoje se dilui em variantes que a despojam de todo valor \u00e9tico. P\u00e2nico, ansiedade, fobias, sintomas ps\u00edquicos e som\u00e1ticos migrat\u00f3rios, culpa e depress\u00e3o por falta de rea\u00e7\u00e3o. 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